Suicídio: 6 motivos para quebrar o silêncio

Suicídio: 6 motivos para quebrar o silêncio

Falar sobre tabus é algo importante para a evolução da sociedade como um todo. Assuntos que, antigamente, não eram discutidos, em âmbito público ou privado, avançaram e hoje podem ser transmitidos de maneira clara, a fim de gerar mais conhecimento e ajuda a quem precisa.

Outros, porém, ainda merecem nossa atenção, como é o caso da prevenção ao suicídio. “Campanhas como as de setembro amarelo, outubro rosa e novembro azul são importantes porque ajudam as pessoas a tomarem consciência que tais problemas existem e a falar sobre eles”, comenta a psiquiatra Giuliana Cividanes, mestre em psiquiatria e psicologia médica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Apesar de ser um tema muito delicado, a profissional lembra que é somente por meio da informação que o estigma, a culpa e o temor associados ao suicídio vão se transformando, o que estimula a busca e a oferta por ajuda especializada.

Para dar mais visibilidade e esclarecer mitos comuns sobre o suicídio, reunimos seis motivos que tornam essa discussão tão importante:

1 – A informação ajuda a quebrar o tabu
O silêncio não é, de forma alguma, a melhor maneira para lidar com o suicídio. Apesar de setembro ser um mês conhecido por campanhas de conscientização sobre o assunto, é fundamental falar sobre o problema durante o ano inteiro.

É por meio da troca de informações confiáveis e acolhedoras que pessoas em situação de risco descobrem que não estão sozinhas e que podem, sim, pedir ajuda, para amigos, familiares ou profissionais de saúde.

Por isso, a comunicação tem um papel importante. “A mídia, como veículo amplo de comunicação, pode ter um papel importante na pisoceducação, de levar informações relevantes que possam ajudar a quem sofre. O que deve ser evitado pela mídia é a divulgação de casos específicos de suicídio de forma romantizada ou idealiza. Por exemplo, divulgar o suicídio de alguma pessoa famosa expondo o modo como ela cometeu o ato, que tipo de vestimenta utilizava no momento da morte, cartas de despedidas que deixou, isso sim pode instigar imitadores, que copiam o ato”, ressalta a psiquiatra.

2 – O suicídio é um problema de saúde pública
O suicídio não é um problema somente de quem comete um ato contra a própria vida ou das pessoas que o cercam, como amigos e familiares. É algo que afeta a sociedade como um todo. Segundo a psiquiatra Giuliana Cividanes, dados sobre o suicídio revelam que este se trata de um problema de saúde pública, já que os números têm aumentado.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), por exemplo, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio no mundo. Já no Brasil, cerca de 17% da população já pensou em suicídio alguma vez na vida.

3 – É possível identificar sinais
Achar que uma pessoa que fala em suicídio está mentindo ou em busca de atenção é um dos maiores mitos sobre o assunto. Na verdade, alguém que comenta sobre essa vontade está pedindo ajuda ou dando sinais claros de que algo não vai bem.

“Pessoas que têm ideia suicida pedem ajuda em 90% dos casos. Muitas vezes, elas já falaram com médicos ou com a família e não foram ouvidas, ou quem ouviu não soube o que fazer. Ouvir e falar sobre o suicídio são fatores de proteção, fazem a diferença”, explica a psiquiatra Giuliana Cividanes.

Algumas frases e comportamentos podem indicar que alguém está pensando em suicídio. Eles não são uma regra, claro, mas os mais comuns são:

Isolamento social
Repetir que quer morrer ou se matar
Muitos meses em luto
Frases como “vou desaparecer” e “quero sumir”.

4 – Não é algo limitado
É verdade que alguns grupos estão mais sujeitos a tentar o suicídio, mas isso não significa que a discussão deva estar restrita a eles. Outro ponto importante é lembrar que este é um ato de desespero, o último recurso para acabar com uma dor muito grande. Por isso, qualquer pessoa pode passar pela ideação suicida.

Atualmente, o maior público ligado ao suicídio são jovens – trata-se da segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 e 29 anos. Por esse motivo, Giuliana faz um alerta:

“A coisa mais importante que um familiar deve fazer é ficar atento, notar os sinais indiretos das crianças e adolescentes. Quando eles estão deprimidos ou algo não vai bem, a tendência é ficar reservado, brincar menos, ter mais irritação, demonstrar isolamento social, ter baixo rendimento escolar, entre outros sinais”, pontua a psiquiatra.

Caso você note essas mudanças, em crianças, adolescentes ou até mesmo adultos, a recomendação dos especialistas é perguntar o que está acontecendo e oferecer ajuda, mesmo que só com uma conversa. Isso também vale para idosos, principalmente para os que têm mais 65 anos. Nessa faixa etária, a tendência ao suicídio aumenta devido a fatores como solidão ou perda de entes queridos.

A psiquiatra explica ainda que em um país que passa por crises financeiras, a taxa de suicídio pode subir pelo desespero de não ter como se sustentar. A Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que 79% dos suicídios no mundo ocorrem em países de baixa e média renda.

De modo geral, em 90% dos casos, a pessoa que tenta se suicidar tem algum transtorno mental, como depressão, bipolaridade e esquizofrenia, ou faz uso abusivo de álcool e drogas.

5 – Uma conversa pode ser determinante
Conversar sobre emoções ou até mesmo o suicídio não é um estímulo à tentativa, muito pelo contrário. Para a médica, devemos acolher aquela pessoa que revela sentir desejo de tirar a própria vida, conversando sobre os sentimentos que a fazem pensar no ato. Isso pode fazer toda a diferença para ela.

“Essa deve ser a principal coisa: ouvir sem julgar, não falar que a pessoa é fraca, rir ou fazer críticas que só pioram o autojulgamento. Quando isso acontece, as coisas negativas são reforçadas. E uma pessoa, só de poder desabafar sem ser julgada, já é capaz de revisar os problemas”, aconselha Giuliana Cividanes.

6 – Há esperança para todos
Quem já enfrentou uma tentativa de suicídio uma vez não está fadado a cometer o ato novamente, num ciclo sem fim. Isso porque apoio e tratamento especializado podem mudar esse cenário, afastando o risco. O ideal é educar a população para escutar e ajudar quem precisa, impedindo que mais casos aconteçam.

Por fim, a psiquiatra Giuliana Cividanes reforça que o suicídio não é uma decisão ou uma escolha. “Essas pessoas não escolhem morrer. Elas escolhem se livrar do sofrimento e não conseguem enxergar uma solução. Ou seja, deixar de viver se torna deixar de sofrer, porque se conseguissem vislumbrar outras saídas, essa não seria a escolha”.

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